Capítulo 7: Um alvo inesperado

                Carlos e Serena subiram a escada; chegaram até a sala de estar da casa. Carlos avistou Kelvin fazendo palavras cruzadas no sofá. Com toda aquela situação, havia se esquecido do homem que o trouxe até aquele lugar, ele era um cúmplice de toda aquela falcatrua. O Crescente não falou nada, não reclamou do fato de ter sido trazido para uma armadilha, apenas seguiu Serena e esperou ela começar a falar sobre seus planos.

                A médica disse para Carlos sentar-se no sofá, ele sentou-se. Ela foi até um quarto; demorou um pouco. Voltou com alguns papéis em mãos. Os jogou na mesa de centro e sentou-se em um sofá de frente para ele.

                — Então. O que tenho que fazer? — indagou Carlos.

                Serena cruzou os braços e começou a falar.

                — Melissa é a líder de uma organização chamada Horizon. Essa organização age pelas sombras na cidade. A população acredita que ela é apenas uma lenda criada por moradores de rua para assustar aristocratas. Felizmente, tenho vários contatos pela cidade e descobri informações úteis sobre eles.

                — E que contatos são esses? — Carlos estava com um olhar de dúvida, suspeitando dessas afirmações. — Se me permite saber.

                — São moradores de rua…  — Ela parecia não estar muito feliz em ter que revelar isso.

                — Então você está confiando em moradores de rua? — Ele arregalou os olhos brevemente. — Não acho que eles sejam parâmetro para informações.

                — E algumas outras pessoas que possuem envolvimento com o governo. Essas informações são confiáveis, não se preocupe. Eu mesma confirmei isso.

                — Quem são essas pessoas? Por que alguém conseguiria informações tão facilmente de uma organização secreta?

                — Chega. — Serena estava com o olho direito piscando de tão irritada. — Você faz muitas perguntas.

                — Preciso saber no que estou me metendo. Preciso da maior quantidade de informações possíveis.

                Serena ficou em silêncio por um momento. Estava pensativa, não sabia se continuava a dar informações ou se ia direto ao assunto. Foi quando Kelvin se intrometeu na conversa.

                — Acho que você devia contar a verdade para ele. — O relojoeiro o olhou fixamente, sabia da força dele por conta dos ferimentos que ele possuía. — Esse homem é um pouco mais esperto e parece ser mais forte do que a maioria que eu trouxe aqui, fora que não é uma informação tão relevante para ele.

                Ao ouvir aquilo, Carlos não se surpreendeu. Já imaginava que aquilo teria acontecido várias vezes. Aqueles dois estavam fazendo isso há muito tempo, pensou ele. Com certeza, sempre enganavam pobres viajantes para realizarem seus trabalhos sujos.

                — Tudo bem — disse Serena hesitante. Não estava muito contente por ter que revelar como ela descobriu todas as coisas podres dessa cidade. — Todas essas informações, eu mesma as consegui.

                — E posso saber como? — Carlos aceitou aquela afirmação, ouviu uma sinceridade na voz de Serena, e aquilo parecia mais plausível do que mendigos dando informações.

                — A própria Melissa me disse isso. — Serena hesitou em terminar a frase, mas não teve outra saída a não ser fazê-la. — Porque ela é a minha irmã.

                Carlos estava analisando tudo desde o começo. Não ficou surpreso com nenhuma afirmação anterior porque já esperava tudo aquilo. É o que acontece quando você presta atenção em pequenos detalhes a sua volta, mas isso era impossível de descobrir. Saber que a prefeita é irmã de Serena pegou ele de surpresa.

                — Então, você quer acabar com a sua própria irmã?

                — Não quero acabar com ela. Apenas quero… — Serena pensou, nem mesmo ela tinha certeza do que queria naquele momento. — Apenas quero que ela pare com essas atrocidades.

                Carlos pensou em continuar questionando o motivo de ela estar fazendo tudo aquilo, mas decidiu não se meter. Entendera os sentimentos da médica. Aquilo era assunto de família e não importava para ele, apenas queria terminar tudo isso logo.

                — Entendo. Então, prossiga com as informações.

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                No alto de um prédio enorme, o maior de Waft, uma mulher está sentada em sua mesa, olhando pela janela que se estende por toda a parede. Ela usa um vestido vermelho chamativo onde é possível ver sua perna; uma prótese de metal está no lugar de sua perna direita, é um metal reluzente que faz com que sua perna seja bela e chamativa. Observa a cidade serenamente enquanto segura em suas mãos uma taça de vinho. Seu olhar está perdido em meio a pensamentos, mas também revela aflições no coração.

                A mulher se levanta, resolve se aproximar da janela, sua perna metálica faz um pouco de barulho, mas ela não se importa; já havia se acostumado com isso. Uma vasta cidade é vista no horizonte, nesse momento, sente-se vazia e sozinha em meio a uma cidade tão grande. Olha para a direita da cidade procurando algo, mas parece que nada encontra. Olha para a esquerda da cidade e novamente tem o mesmo resultado. Não sabe ao certo o que está procurando, mas sabe o que a aflige. A mulher morde o lábio superior.

                De repente, ouve-se batidas na porta. A mulher responde com um “entre”.

                Um rapaz entra na sala e caminha lentamente em direção a ela. Esse rapaz, que utiliza uma cartola que não combina com a sua aparência jovem, chama-se Finn Azerath — uma pessoa com um sobrenome peculiar naquela região. — Ele imediatamente chama pela mulher.

                — Senhorita Melissa?

                A prefeita de Waft demora a responder. Ainda estava vislumbrando a cidade pela janela. Aquele ar acinzentado a encantava de uma forma diferente. Muitas pessoas poderiam dizer que aquela cidade era feia por conta do ar, mas Melissa não pensava assim, achava que Waft tinha sua própria beleza.

                — Olá, Finn — ela respondeu com uma voz distante.

                — Você ainda está olhando para essa janela?

                — Sim. A vista daqui é linda.

                — Sim. Essa cidade é bela, apesar de tudo.

                Ela deu um pequeno sorriso e um gesto concordando. Largou a taça na mesa e mudou de assunto, conseguia sentir no olhar dele que o rapaz tinha vindo com alguma notícia.

                — E então, o que o traz aqui?

                Finn se aproximou mais para conseguir conversar melhor com ela.

                — Ouvi relatos de algumas pessoas dizendo que na área norte da cidade houve um tumulto.

                — Que tipo de tumulto? — Ela arqueou a sobrancelha, franziu um pouco a testa e o encarou com atenção. — Me conte com detalhes.

                — Parece que houve uma luta. Alguns membros da FMU lutaram contra um viajante. As pessoas diziam que a roupa dele era meio estranha.

                — Houve feridos? — Sua expressão não escondia a preocupação no rosto.

                — Sim. — Ele olhou para um documento em suas mãos. — Esse aqui é um relatório do que aconteceu. Parece que houve uma morte de um membro de uma equipe de estagiários da organização. Três pessoas ficaram feridas, eles também eram dessa equipe.

                — Alguma pessoa da cidade ficou ferida?

                — Não. Elas apenas ficaram assustadas, as baixas foram apenas essas que citei, além de alguns danos ao patrimônio da cidade.

                — Entendo. — Melissa suspirou de alívio por não ter tido mais vítimas, mas estava sentida pelo o que aconteceu aos outros. — Entrarei em contato com a FMU e informarei do ocorrido. Diga a Reinhard para manter a guarda em vigilância. Não podemos permitir que essa pessoa saia impune.

                — Imediatamente, senhorita — Finn colocou o documento na mesa da prefeita. — Deixarei o relatório aqui para que você leia.

                — Obrigada.

                Finn se despediu e saiu da sala deixando-a a só. Ela pegou o documento e começou a folear.

                “Uma pessoa com uma roupa estranha. Preciso saber mais” — pensou ela. — “Será que Serena tem algo a ver com isso?” — Olhou a página que dizia sobre a morte de um membro da equipe da FMU, e começou a raciocinar — “Hum, não acho que ela faria algo contra aquela organização. Ela sempre direcionou seus ataques contra mim. Isso parece ser um caso isolado.” — Lembrou-se do fato de os membros da organização serem fortes. Sem perceber, colocou o dedo indicador nos lábios — “Se essa pessoa conseguiu matar algum membro daquela organização, provavelmente também deve ser forte, algumas pessoas relataram que essa pessoa disparava gelo das mãos. Isso parece meio exagerado, mas não impossível. Se existe alguém tão forte, com certeza minha irmã tentará usá-lo contra mim. — Largou os documentos na mesa.

                — Preciso avisar isso para todos os membros da Horizon — disse ela enquanto saía da sala.

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                Serena começou a falar sobre todas as informações que havia reunido durante todos esses anos. Após ter explicado sobre como as conseguiu, Carlos parou de fazer perguntas desse tipo e se focou em entender o que precisava.

                — Seu trabalho é matar todos os principais membros da organização Horizon — disse a médica enquanto foleava alguns papéis.

                — Matar? — Carlos ficou desconfortável com aquela ideia, apesar de ter matado Julia, ainda não era frio o suficiente para sair matando qualquer um sem motivos. — Não posso simplesmente prender eles?

                — Não. Não os subestime, eles são bem poderosos, não seria tão fácil prendê-los. E eu prefiro acabar com o problema de uma vez.

                — Todas as pessoas que foram contratadas para matá-los, não duraram alguns minutos contra apenas um deles — complementou Kelvin.

                — Contratadas, huh? — disse Carlos ironicamente enquanto olhava para Kelvin, que estava fazendo palavras cruzadas.

                — Kelvin tem razão, não importa a sua força, tente ser cauteloso, e lute para matá-los.

                — Certo, certo. — Carlos deu de ombros. — Apesar de não estar nada confortável com isso, não tenho outra escolha mesmo. Então, quantas pessoas tenho que matar?

                — São quatro membros principais, incluindo a prefeita. — Melissa finalmente achou os arquivos que necessitava. — Essa aqui é o seu primeiro alvo.

                A médica jogou os papéis na mesa para que ele os olhasse. O Crescente pegou os papéis e começou a folear; estava lendo tudo com cuidado, até chegar na imagem do seu alvo. Um silêncio tomou conta da sala e ele ficou paralisado olhando para a foto. Seu olhar era abismado e indignado ao mesmo tempo, era como se tivesse visto um fantasma.

                — Me-meu alvo é uma. — Carlos deu uma pausa para continuar, estava um pouco nervoso. — Garotinha?

                — Sim — respondeu Serena. — Por que está tão nervoso quanto a isso?

                — Porquê é uma criança? — Ele apertou os papéis com força. — Você é maluca por acaso?

                — Não se deixe enganar. — Serena suspirou, tirou um cigarro do bolso, acendeu e fumou. — Ela é uma garotinha, mas não hesitaria em te matar.

                — Explique-se — disse Carlos, tentando se recompor.

                — O nome dessa garota é Lynda Hin. Aos 5 anos de idade, ela matou sua própria família para ficar com toda a herança e negócios da família. Hoje em dia ela tem uma fábrica de confecção de roupas, mas atua na organização com vendas de escravos para outras cidades.

                — Você tem certeza disso? — indagou Carlos ainda não acreditando em tudo aquilo.

                — Sim. A cena de massacre da família Hin foi tão brutal que prefiro não descrever.

                — É difícil de acreditar.

                — Entendo. Você é um viajante e não sabe como funciona a crueldade dessa organização, mas aconselho a você Carlos, que tente ver além das aparências. Uma criança com uma aparência doce pode ser um demônio.

                Carlos imediatamente lembrou da FMU. Achava que aquela organização era seu lar e que as pessoas eram boas, mas recentemente ele havia descoberto que tudo aquilo não era o que ele imaginava. Com exceção de sua mestra, ninguém se importava com ele naquele lugar. Acreditar que uma criança poderia fazer tudo aquilo não era tão difícil.

                — Entendi. Tudo bem, vou aceitar isso. — Ele baixou a cabeça. Apenas pensou que tudo aquilo era necessário para poder sobreviver.

                — Sábia decisão. Você deveria começar a ir atrás dela nesse momento.

                — Já? Não tem mais informações que eu precise saber?

                — Infelizmente, tudo o que tenho está nesses documentos. Não conseguimos reunir mais informações sobre ela ou qualquer outro membro da organização. Todas as pessoas que nós mandamos morreram e não conseguimos saber sobre suas habilidades.

                — Certo. — Carlos colocou os papéis na mesa, cruzou os braços e fez uma cara de insatisfação. — Então, terei que lutar contra eles sem saber suas habilidades. Não me parece bom.

                — Não se preocupe, Kelvin irá com você.

                Nesse momento, Kelvin olhou para os dois e deu um sorriso confortante, mas Carlos não se sentiu assim.

                — E por que isso faria eu me sentir melhor? — Carlos olhou para Kelvin. — Você por acaso sabe lutar?

                Kelvin se levantou e agarrou em seu próprio braço, levantando o punho direito. Deu uma risada contagiante. Carlos não ficou satisfeito com aquilo, apenas achou a pose engraçada.

                — Com certeza — respondeu o relojoeiro alegremente. — Eu sei lutar.

                — Kelvin possui uma boa força física — complementou a médica. — Ele sempre acompanha as pessoas que envio, para dar suporte a elas.

                — Tudo bem, aceitarei a sua ajuda. — “É melhor que nada”, pensou ele. — Onde está essa garota?

                — Aqui está um mapa da cidade. — Serena deu o mapa na mão de Carlos. — Leve com você. Kelvin o guiará até ela.

                — Preciso de um tempo para descansar. — Carlos ainda estava ferido e não conseguia andar muito bem, seus ferimentos ainda doíam; suas mãos estavam fracas por conta dos bloqueios. — Tudo bem?

                — Não me importo. — Serena começou a caminhar, seu cigarro deixava um rastro de fumaça no ar. — Quem está com pressa é você. Lembre-se que você tem até quatro dias para completar tudo.

                — É, eu sei, não precisa me lembrar.

                — Em todo caso, tenho um quarto para você descansar, siga-me. — Serena fez um gesto para que ele a seguisse.

                — E por que eu dormiria aqui? Posso acordar amanhã e ter meus órgãos retirados e vendidos no mercado negro — disse Carlos desconfortavelmente, enquanto imaginava isso.

                — Porque você não tem dinheiro para pagar um lugar para dormir, e já lhe tenho nas minhas mãos, então deixe de drama, venha.

                Carlos não podia argumentar contra aquilo, estava realmente sem grana, também não poderia ir embora sem a cura, de qualquer jeito. Apenas podia aceitar o quarto e descansar para realizar o assassinato no dia seguinte.

                Carlos seguiu Serena, estava com medo de que o quarto fosse em um porão sujo e desconfortável, não era algo impossível de acontecer devido ao caráter da médica. Olhava atentamente para onde estava indo. Ela parou de andar; abriu a porta de um cômodo e o adentrou, fez um gesto para que ele entrasse também.

                O Crescente se surpreendeu, não esperava que ela o levaria até um quarto normal. Para falar a verdade, o quarto era bem bonito e acolhedor, era tão belo quanto a sala de estar. A cama era grande, e parecia confortável o suficiente para se dormir tranquilamente; ao lado tinha um guarda-roupa modesto. A decoração era bem planejada, alguns quadros com artes de paisagem enfeitavam a parede, enquanto alguns vasos com flores estavam simetricamente ajeitados dos dois lados da cama. Um tapete enorme se estendia no chão, também tinha uma poltrona, que servia para se sentar e ler diversos livros que estavam em uma estante à frente.

                Carlos não conseguiu esboçar uma palavra, ainda estava desacreditando no lugar que iria dormir.

                — O que foi? Isso não atende as suas expectativas? — indagou a médica enquanto olhava a cara de bobo dele.

                — Eu acho… que está ótimo. — Era tudo o que ele poderia dizer.

                — Então, o deixarei só — Serena saiu do quarto e fechou a porta.

                Ele fechou a enorme cortina que cobria toda a janela e se deitou na cama sem fazer cerimônias. Pensou que não conseguiria dormir, por conta da preocupação em ter uma toxina em seu corpo, prestes a matá-lo. Também pelo fato de ter que, no dia seguinte, matar uma garotinha. Mas seu cansaço era tanto que fechou os olhos e imediatamente apagou, mesmo que ainda estivesse perto de escurecer.

A situação não parece nada bom para Carlos. Ele vai ter que realizar trabalhos de assassinatos, e o pior de tudo é que seu primeiro alvo é uma garotinha. Quando eu criei esse problema para ele resolver, eu pensei muito na discussão moral por trás disso. É um beco sem saída para o personagem, ou ele comete um ato imoral, ou ele morre. É muito legal colocar os personagens nesses dilemas éticos e conseguir desenvolvê-lo de forma a causar uma reflexão em quem está lendo.

Houve também a revelação de que Serena e Melissa são irmãs. Eu pretendia demorar um pouco mais para revelar isso, mas decidi que não é algo tão útil para fazer mistério, e revelar mais cedo ajuda o leitor a ficar mais imerso no arco. Da pra pensar no que pode acontecer entre as duas durante a história de Waft.

Melissa mencionou Horizon. Bem, geralmente eu tento criar nomes que remetem a algo. As vezes não, mas eu sempre tento. E também eu gosto de manter os nomes em português, eu tentarei fazer bastante isso durante a obra, mas eu não gostei de como “Horizonte” soaria ao pronunciar o nome de uma organização, então decidi colocar em inglês mesmo.

Obrigado por ler a nota. Até a próxima.