Capítulo 3: Esgueirando-se em Waft

                Enquanto observava fascinado a cidade, Carlos retomou sua atenção ao ouvir um grito vindo por trás.

                — Sai da frente, seu idiota.

                Era a voz de um senhor gordo em cima de uma carruagem. Carlos logo notou os trotes do cavalo que a puxavam, estavam lentos e vagarosos, como se estivessem andando há dias. Ficou espantado pelo grito repentino. Esses gritos poderiam ser de membros da FMU tentado o levar de volta, mas por sorte era apenas a de um vendedor de um pequeno vilarejo, que havia tomado a estrada principal até Waft à procura de vender e comprar produtos.

                Imediatamente saiu do caminho da carruagem.

— Droga, fiquei distraído com a cidade. Eu poderia ter sido pego. — Carlos respirou fundo, havia parado de ofegar, então soltou o ar de seus pulmões e ficou alerta.

                Após olhar aos arredores, o Crescente começou a caminhar lentamente em direção à cidade. Havia aprendido a lição e mesmo atravessando o gigante portão que dava as boas-vindas à cidade de Waft, não se distraiu. Apenas continuou caminhando, seguindo em frente. Até finalmente adentrar o local.

                A cidade de Waft, uma cidade que a pouco tempo evoluiu devido as recentes ajudas da FMU. A organização conseguiu em pouco tempo desenvolver a tecnologia do local, desenvolver seus recursos e até mudar a forma de vida das pessoas. Waft era uma cidade simples com uma população pacata, mas com a chegada da FMU, a tecnologia foi sendo adicionada aos poucos na vida das pessoas. As fazendas deram lugar a grandes e majestosas fábricas de produção em massa, que em pouco tempo criavam os recursos necessários para troca e venda em outras cidades através da estrada de ferro construída. As pequenas estradas de barro e areia perderam o espaço para grandes e longas ruas pavimentadas, onde era possível uma grande quantidade de pessoas transitar por elas. As pessoas simples e rurais logo foram sendo desenvolvidas através de grandes centros de ensinamentos construídas na FMU; as pessoas faziam longas viagens para beber do conhecimento que a organização proporcionava.

                Infelizmente com a grande evolução vieram os pontos negativos. Embora a cidade tivesse evoluído, a população passava por uma grande crise econômica e trabalhista; para conseguir manter as fábricas não era necessária uma grande quantidade de mão de obra, pois todo o trabalho era realizado por máquinas que tomaram o lugar da população trabalhista. Isso causou uma grande onda de desemprego que era visível só de olhar para as ruas de Waft.

                É claro que a cidade era governada por alguém, a prefeita em questão mantinha sua reputação dividida. Muitas pessoas apoiavam ela e gostavam de a ter no poder, geralmente essas pessoas eram os proletariados. Os aristocratas odiavam sua presença no governo e faziam protestos e rebeliões para que ela pudesse sair do poder.

                A cidade que era magnifica e grandiosa vista de longe, escondia um verdadeiro caos em seu interior. Algo que Carlos notara ao pisar pela primeira vez nela.

                Adentrando a cidade, notou um ar pesado, a atmosfera da cidade carregava uma aura morta e triste. Era possível ver muitas pessoas andando pelas ruas com um olhar vazio e arrogante no rosto. O ar acinzentado, por conta das inúmeras fábricas que soltavam fumaça, combinava com as roupas de seus habitantes. Cores mortas e sem brilho. Os cidadãos usavam roupas extravagantes que pareciam ter levado anos para serem fabricados – o que não era verdade já que naquela cidade praticamente tudo era feito por maquinários – eles andavam com um olhar gélido sempre desprezando moradores de rua que, de vez em quando, bloqueavam os caminhos das pessoas.

                Os moradores de rua pareciam estar por toda a parte. Onde Carlos olhava era possível ver ou pessoas conversando sobre coisas fúteis e aristocráticas ou pessoas esfarrapadas no chão; com sujeira por toda a roupa rasgada e remendada. Ele achou incrível a discrepância social tão perto uma da outra, e tão ignorante ao mesmo tempo. Essa cidade não era nada do que se via de longe. De perto era tudo o que se esperaria de uma cidade que esqueceu seus princípios éticos e sociais para dar lugar a evolução.

                Carlos caminhou lentamente pela rua, olhando de um lado para o outro observando tudo o que se passava. Não era como se ele se importasse com aquela cidade e tudo o que estava acontecendo, mas um sentimento de decepção passou por ele. Esperava mais que uma cidade mergulhada no caos, mas não estava ali para se preocupar com política. Esperava encontrar alguma pista sobre o Círculo Mágico nessa cidade. “Você sabia que Waft é muito caótica nessa época do ano?” Era isso que sua mestra havia dito durante a semana em que ele estava treinando. Pesquisando em alguns livros descobriu que, o caos que ela mencionara era por causa da época de colheita em alguns vilarejos, o que fazia com que mercadores fossem até Waft para negociar produtos, isso tornava a área comercial um pouco movimentada. Ele entendeu aquilo como um recado. “Vá a área comercial de Waft”.

                Carlos se lembrou de manter-se em alerta. Poderia ser facilmente reconhecido ali, não era para menos, existia uma grande diferença entre suas roupas e a dos habitantes. Algumas pessoas possuíam vestes diferentes, mas eram todos de peregrinos de outras cidades.

                — Essas roupas são um pouco chamativas. — Notou que as pessoas o olhavam brevemente com estranheza no olhar, talvez por conta de seus chinelos que não eram muito utilizados naquela cidade; suas roupas também não eram comuns. — Por sorte têm algumas pessoas com roupas estranhas também, e posso facilmente reconhecer os uniformes da FMU.

                Pelo menos era isso que Carlos achava; algumas pessoas pareciam ser de regiões diferentes, não se vestiam normalmente como os cidadãos residentes de Waft. Não estava errado, mas ele não podia levar apenas isso em conta.

                — Espere, se já estão cientes de que escapei, eles não andariam nessas ruas assim para serem reconhecidos. — Carlos notou que havia se precipitado e começou a ficar nervoso. — Eles podem estar com as roupas dessa cidade e eu não saberia.

                Ao notar seu erro, ficou calmo e agiu rápido. Começou a caminhar entre a multidão para se camuflar. Andou esgueirando-se com a cabeça baixa, volta e meia dando passos mais largos para se movimentar depressa.

                Isso parecia estar dando certo, conseguiu passar um bom tempo sem ser reconhecido; já estava começando a ficar mais relaxado e pensando que a FMU poderia não estar lá, mas apesar disso não baixou a guarda. O problema de ficar se esgueirando assim é não poder confiar em perguntar para alguém onde ficava a área comercial de Waft.

                [Maria]: Então ele ficava se esgueirando para não ser pego? Isso é meio… patético.

                [Bortoluzzo]: Realmente, eu nunca que faria isso.

                [Maria]: Mas você já não fez isso?

                [Bortoluzzo]: Shhh, isso foi em diferentes circunstâncias. Mas dá para entender por que ele fez isso. Carlos saiu da FMU sem ter nenhuma experiência real em combate. Para ele que não sabia como eram os inimigos, ou saber como deduzir a força deles, era melhor se esconder e evitar conflito.

                [Maria]: Isso é um erro.

                [Bortoluzzo]: Sim, ele não se dava conta que ao sair naquela jornada iria se deparar constantemente com conflitos, era preciso saber vencê-los. Mas ele aprendeu isso da pior maneira.

                — Parece que até aqui está tudo bem — disse Carlos enquanto suspirava de alivio. — Se continuar nesse ritmo, posso chegar até a área comercial sem problemas.

                Tudo estava ocorrendo tranquilamente para o rapaz. Viu alguns vendedores em carroças indo para oeste e resolveu segui-los.

                No momento em que ia virar a esquina, alguém colocou as mãos em seu ombro esquerdo.

                — Não se mexa. — Essa pessoa estava com um tom sério na voz. — Não se vire e não tente fazer nenhum movimento. Você está cercado por vários membros da FMU.

                Carlos se espantou quando foi pego, virou os olhos procurando pelos membros da organização. Notou que havia três na frente dele e dois à esquerda. Lentamente levantou a cabeça e notou que existia duas pessoas vigiando nos telhados; um na direita e outro na esquerda. Começou a suar frio e a tremer, não esperava por essa emboscada, muito menos tão de repente, era como se os estagiários houvessem brotado do solo.

                — Não tente nada. — O estagiário da organização que estava segurando o ombro de Carlos notou uma mudança em sua energia.

                Carlos não encontrou uma alternativa a não ser resistir, não poderia voltar para àquela organização, todo seu esforço para fugir não seria em vão. Mesmo que tivesse que morrer tentando, não deixaria aqueles estagiários o levarem de volta.

                Os estagiários ficaram um pouco apreensivos com a reação de Carlos. Eles já estavam preparados para lutar, mas imaginaram que poderiam apenas levá-lo sem problema algum.

                — Desculpe — disse Carlos lamentando sua próxima ação.

                O Crescente deu um pequeno olhar melancólico e agarrou a mão do estagiário que estava em seu ombro, repentinamente a mão de seu inimigo começou a ser congelada. Fez força e estilhaçou a mão do inimigo.

                — O… o que? — O estagiário se afastou e gemeu de dor.

                Após ver a mão daquela pessoa decepada, uma mulher começou a gritar, sua histeria deu lugar ao caos naquela rua. Pessoas começaram a correr, isso desencadeou uma histeria coletiva fazendo com que outras pessoas começassem a correr. Os moradores de rua se esconderam, a rua ficou um deserto silencioso.

                Imediatamente, os outros estagiários que estavam presentes reagiram. Os que estavam na rua correram para atacar Carlos, os que estavam no teto permaneceram observando. Cada inimigo carregava em suas mãos um artefato diferente. Eles repentinamente esticaram seus braços e fecharam suas mãos, uma energia emanou de seus punhos.

                Dois estagiários possuíam artefatos semelhantes, tinham a forma de um triângulo e se estendiam por toda a mão; eram alocadas por uma manopla que fazia com que o artefato não caísse. O artefato desses dois foram transformados em espadas longas que possuíam um design peculiar. Era uma tecnologia muito avançada que não estava presente naquela cidade.

                Outros dois estagiários possuíam artefatos com apetrechos semelhantes aos outros, só o que mudava era o formato deles, sendo um deles em formato com duas arestas finas e de formato convexas, o outro tinha o formato de uma flecha. Um artefato foi transformado em machado e o outro em uma lança respectivamente, eles possuíam o mesmo aparato tecnológico dos outros artefatos.

                O último estagiário que o estava cercando no chão — pelo menos o último que não havia perdido uma mão — segurava um artefato esférico. Esse foi transformado em um tipo de escudo tecnológico.

                — Armas? — Carlos não esperava por aquilo, aquelas armas pareciam intimidadoras e poderosas. — Isso vai ser com…

                Seu comentário foi interrompido pelo o estagiário que parecia ser o líder.

                — Ataquem, agora! — gritou ele.

                Os estagiários investiram em Carlos rapidamente. Eles estavam em um frenesi que não permitia nenhum tipo de conversa. O Crescente teve que pensar rápido; colocou a mão no chão, sua energia foi passada de seu corpo para as mãos, e utilizando suas habilidades de gelo, um enorme pilar foi criado jogando-o no ar. Esse foi um modo rápido e inteligente de se reposicionar na batalha, mas cometeu um erro. Havia se esquecido dos dois membros da organização que estavam no telhado de dois prédios paralelos.

                Os artefatos dessas duas estagiárias eram no formato de um cilindro longo que foram transformados em dois rifles de alta precisão.

                A mulher que estava no prédio do lado direito da rua disparou uma bala de energia, que foi mirado na cabeça de Carlos enquanto ele estava no alto. Por reflexo, ele colocou a mão direita em seu rosto e criou uma proteção de gelo parando a perfuração da bala, mas o impacto machucou sua mão, fazendo com que seu corpo fosse jogado para trás. Com ele ainda no ar, a atiradora do prédio esquerdo fez um disparo que perfurou seu braço esquerdo. Carlos caiu no lado direito da calçada, longe dos estagiários. Por um momento os atiradores começaram a carregar outro disparo, enquanto os inimigos que estavam na rua foram direto para cima dele.

                Carlos estava ofegante por conta da dor que a bala de energia havia feito em seu braço. Sangue escorria por toda a manga de sua camisa e casaco. Ele iria conseguir bloquear alguns disparos, mas não teria reflexo o suficiente para bloquear tudo enquanto lidava com os outros estagiários.

                O primeiro inimigo a chegar perto de Carlos foi o estagiário com uma espada. Ele investiu contra Carlos com um golpe cortante na horizontal. O Crescente usou sua mão direita para criar uma barreira de gelo e bloquear o golpe. Foi um sucesso, mas o impacto forçou ainda mais sua mão direita que já estava doendo. Carlos deslizou para trás. O inimigo começou a desferir mais golpes de espadas tentando quebrar sua defesa. Ele mal teve tempo de se recuperar dos golpes.

                Uma das atiradoras disparou novamente, por reflexo ele colocou a mão no rosto e fez uma proteção de gelo, mas o ataque o surpreendeu; o projétil foi em direção ao escudo de um deles, a bala de energia ricocheteou acertando a perna direita de Carlos que recuou com um grito de dor. Sangue começou a jorrar.

                Os inimigos não deram tempo para ele se recuperar, partiram novamente para o ataque, dessa o cercaram para atacar. Mesmo com a perna e o braço feridos, estava conseguindo bloquear os ataques. Por um deslize do estagiário com o machado, ele conseguiu segurar seu braço direito, congelá-lo e estilhaçá-lo. Isso tirou um deles de combate.

                Os estagiários da FMU eram novatos treinados por Alessandra. Eles possuíam a mesma experiência de combate real que Carlos, “nenhuma”. Mesmo sendo um Crescente e possuindo mais energia que eles individualmente, seus inimigos eram maiores em número, possuíam uma tática de combate sólida, com ataque, defesa e suporte.

                Carlos continuou lutando. Com dois inimigos fora de combate; com sua perna e braços machucados, a luta havia ficado mais intensa. A mulher que estava no prédio acima dele fez um disparo. Já contava com isso, colocou sua mão esquerda para o alto bloqueando o tiro com o gelo. Isso fez com que sua defesa ficasse fraca, permitindo que o estagiário com a lança desferisse um golpe perfurante nele. Conseguiu desviar, fazendo com que sua manga fosse rasgada e seu ferimento se tornasse leve.

                Nesse momento notou que seria impossível vencer. Imediatamente avistou a outra atiradora com o tiro quase carregado, Carlos tentou algo que nunca havia feito. Estendeu seu braço em direção a atiradora, como se estivesse mirando. Sua mão emanou energia, uma estaca de gelo se formou e foi disparada em direção à atiradora. Ela não esperava um ataque à distância, subestimou seu inimigo achando que estava segura em sua formação. Como eu disse: experiência de combate zero. O ataque perfurou sua barriga. Não a matou, mas a tirou de combate.

                O ataque à distância de Carlos surpreendeu os inimigos, fazendo com que eles se distraíssem por alguns segundos olhando para sua aliada derrotada. O Crescente aproveitou e adentrou em um beco que estava próximo. Esgotou boa parte de sua energia para criar uma parede de gelo que bloqueou o caminho de seus inimigos. Tentaram escalar a parede para persegui-lo, mas ela era alta demais e escorregadia. Tentaram quebrá-la com seus artefatos, mas a defesa era forte demais. Havia acabado para eles, mas ainda restava uma atiradora no telhado. Ela era a esperança de sua equipe. Carlos teria que lutar contra ela. Era uma batalha de um contra um.

                — Vou atrás dele — gritou a atiradora enquanto corria em cima dos prédios.

                — Dony, não devemos ir atrás dela? — perguntou Heni, o estagiário que utilizava um escudo, ele redirecionara a pergunta para o líder da equipe.

                — Sim, mas também devemos cuidar dos nossos companheiros feridos. Vá você e Eliot dar suporte para ela. Drake e eu ficaremos aqui para cuidar dos outros.

                — Ok. Partiremos pela rua até chegar ao final do beco. De acordo com o mapa da cidade esse beco é um pouco extenso, podemos demorar um pouco para chegar até lá. Ela ficará bem?

                Dony estava prestando os primeiro-socorros em um de seus companheiros que havia perdido a mão. Ao ouvir a pergunta de Heni ele olhou para o alto, encarando o céu acinzentado. Ele poderia dar apenas uma resposta.

                — Nós temos que confiar em Julia.

                — Tudo bem…

                — Ei. Ela ficará bem. É a mais responsável de nós, se as coisas ficarem feias, ela vai se retirar da batalha.

                — Acho que você tem razão.

                Heni se virou e chamou Eliot para ir atrás de Carlos. Os dois partiram através da rua com o máximo de velocidade que conseguiriam.

                — Ei Julia, estamos indo pela rua, vamos chegar até o final e lutaremos juntos contra ele. — Henri estava se comunicando com ela através de um transmissor que foi fabricado na FMU para ajudar na comunicação entre equipes.

                — Certo. Vou persegui-lo e o levarei até o final do beco, me encontre lá. — Ela desligou o transmissor e se concentrou em perseguir Carlos.

É, depois de um grande capítulo com diálogos, finalmente uma luta aconteceu. Carlos apanhou um pouco, mas conseguiu conter a situação e fugir. Eu gosto de fazer lutas difíceis onde os personagens possuem níveis de poder semelhantes. Geralmente isso da uma consequência interessante onde pode mudar o rumo da história.

Bom, esse capítulo não teve muitas informações, apenas foi introduzido sobre os artefatos, que são bem poderosos dependendo dos usuários e do nível de treino. Esses artefatos criados pela FMU podem se transformar em algum tipo de arma, que é escolhido pelo usuário. Futuramente haverá mais informações sobre o funcionamento deles.

Obrigado por ler a nota. Até a próxima.